Estrada de terra ladeada por árvores e vegetação densa, parcialmente coberta por ramos e mato.

Caminhos em movimento: natureza, energia e o ciclo da mudança

Entre trilhos transformados e paisagens reinventadas, descobri que a mudança é o caminho mais natural.

Há percursos que se repetem sem nunca serem iguais. Mesmo quando os caminhos parecem os mesmos, basta um pouco mais de tempo, ou um olhar mais atento, para perceber que tudo mudou. Que o trilho já não segue por onde seguia, que a vegetação avançou, que há um novo silêncio ou um som novo. Este é o relato de um regresso aparentemente simples, feito sobre duas rodas e em terreno conhecido, que acabou por revelar o que muitas vezes esquecemos: que a mudança faz parte do ciclo, e que o nosso papel não é travá-la, mas acompanhá-la com respeito e curiosidade.

O regresso

Fazia mais de um ano que não passava por ali. Não por esquecimento, mas porque o tempo tem formas subtis de nos afastar do essencial. As semanas encavalitam-se, as obrigações crescem como mato, e os dias com espaço para um passeio sem pressa tornam-se uma exceção rara. O inverno foi rigoroso, e a lama que se agarra aos pneus é sempre uma boa razão para adiar o regresso. Quando pedalava, era mais por necessidade do que por escolha: estrada quando havia sol, rolo quando só havia minutos.

Ainda assim, a memória do trilho permanecia. Latente. Como um cheiro que regressa com o vento certo. E nesse dia, sem grandes planos nem justificações, agarrei na bicicleta de BTT e fui. Não por nostalgia, mas por intuição. O céu abria-se num azul limpo, e o corpo parecia querer contar outra história que não fosse feita de teclas e ecrãs. Saí de casa como quem abre uma gaveta esquecida. E o que encontrei foi mais do que um caminho, foi uma transformação à espera de ser lida.

Era o mesmo gesto de encaixar os pedais, o mesmo início de percurso. Mas ali, no silêncio entre as primeiras pedaladas, senti logo: aquele regresso não ia ser igual. Porque nenhum regresso o é.

A surpresa do reencontro

Parti de casa com o habitual gesto de encaixar os pedais, sentindo ainda o corpo a protestar contra o esforço inicial, como se precisasse de reaprender o movimento. O caminho parecia-me familiar, os mesmos muros de pedra, os mesmos sobreiros antigos, as mesmas bifurcações que tantas vezes tinham sido decididas ao sabor da curiosidade. Mas o ar estava diferente. Mais húmido, mais denso, mais cheio de murmúrios.

Era como se o lugar tivesse respirado na minha ausência, como se tudo o que era estático tivesse avançado alguns passos. As silvas não pediram licença: expandiram-se com a paciência selvagem de quem sabe esperar. O mato, antes recuado, agora insinuava-se até ao limite da roda. E os sons, as folhas, os pássaros, o vento, já não vinham de onde costumavam vir. Tudo parecia ter mudado de lugar, como uma casa antiga arrumada por mãos alheias.

A paisagem, essa, não me esperou. Prosseguiu o seu ciclo, como deve ser. Onde havia caminho, agora havia obstáculo. Onde o trilho era largo, estreitou-se. Onde o barro era espesso, surgia agora uma terra solta, quase leve. Nada era como me lembrava, mas nada estava errado.

Era como regressar a um lugar onde se viveu intensamente e perceber que já não se encaixa da mesma forma, mas onde tudo continua a fazer sentido. Um reencontro que não é feito de saudade, mas de aceitação. Porque a surpresa, afinal, não estava na paisagem. Estava em mim, que voltei com olhos prontos para ver de outra maneira.

A presença do novo: o parque solar

Segui por entre campos e vales, embalado por um ritmo constante e tranquilo, quando a paisagem, de repente, falou mais alto. Por trás da base aérea da Ota, onde outrora se estendiam campos abertos, avistava-se agora um extenso parque solar. Um tapete de painéis escuros, alinhados com rigor, que absorvem a luz como se dela dependesse o próprio território. A primeira reação foi de espanto. Mas logo se dissipou.

Não havia ali qualquer agressão visual. Pelo contrário, havia ordem. Havia silêncio. Havia uma estranha harmonia entre o brilho metálico e o verde em redor. A intervenção humana, tantas vezes dissonante, ali parecia ter encontrado um tom compatível com o resto da composição. Era como se o progresso tivesse pedido licença antes de entrar.

Observei os coelhos a cruzar despreocupadamente os limites do parque, as aves a usar os suportes como miradouros improvisados, e até as ervas daninhas a desafiar o betão, insinuando-se entre os intervalos com aquela teimosia silenciosa da vida. A natureza, como sempre, encontrou uma forma de continuar. Não reclama. Ajusta-se. Transforma a novidade em rotina e aprende a conviver com ela.

Alguns caminhos foram cortados, sim. Outros, deixados ao abandono. Mas os trilhos abandonados não desaparecem, reinventam-se. O solo volta a respirar, as raízes avançam, e o silêncio que se instala convida à contemplação. É ali, entre a engenharia e o instinto, que o território revela uma nova versão de si mesmo. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. E isso basta.

Caminhos cortados, caminhos abertos

É curioso como o desaparecimento de um trilho não significa o fim do caminho. É apenas o terreno a testar a nossa vontade. Quando uma vereda se fecha, outra insinua-se por entre as margens, quase como um convite sussurrado. Às vezes é preciso contornar. Noutras, improvisar. E há dias em que basta confiar na direção do instinto.

Foi isso que fiz. Escolhi não voltar para trás. Deixei que a bicicleta se fizesse à incerteza dos ramos baixos, das pedras soltas, do traçado pouco nítido. Avancei por caminhos menos batidos, onde o mato se encostava ao guiador como quem tenta travar uma conversa. A terra ainda guardava a frescura da madrugada e o cheiro a húmus era tão denso que quase se podia tocar. Cada pedalada era um ato de entrega ao desconhecido.

Ali, a mudança deixava de ser obstáculo. Era sinal. Uma inscrição viva no terreno. E foi nesse instante que compreendi: estes caminhos, cortados, abandonados, transformados, não são interrupções. São continuações noutra forma. São extensões do mundo em transformação, onde a natureza não destrói: ressignifica.

E tudo o que ela nos mostra, sem pressa nem barulho, é que o novo não apaga o antigo. Apenas o reorganiza com a paciência de quem sabe que o tempo é o verdadeiro cartógrafo.

A leitura do território

Enquanto pedalava, deixei que o corpo conduzisse e a mente divagasse, como quem atravessa um livro sem título. Pensava na forma como o mundo se move, não aos solavancos como às vezes parece nas notícias, mas num compasso mais profundo, quase subterrâneo. Há mudanças que se anunciam com estrondo, como cortes na estrada, quedas de árvores, edifícios que surgem de um dia para o outro. Mas há outras, mais subtis, que só se revelam a quem regressa depois de muito tempo. São essas que moldam o mundo sem ruído: a erosão de uma curva, o alargamento de uma clareira, o desaparecimento discreto de uma sombra.

A bicicleta, ali entre o trilho e o sol, tornou-se mais do que meio de transporte. Era um instrumento de leitura do território, uma agulha a percorrer um texto antigo escrito em terra, pedra e silêncio. Cada pedra fora de lugar era uma vírgula fora do sítio. Cada curva mais fechada, uma mudança de parágrafo. Cada árvore caída, uma nota de rodapé deixada pela natureza. Pedalar ali era ler uma narrativa viva, onde tudo mudava e, ainda assim, tudo continuava.

Não era preciso entender tudo. Bastava estar presente. Atento. Porque o território não fala, sussurra. E há que saber escutar.

Mudança como ciclo

Cheguei ao fim do percurso com terra nos pneus, suor na testa e uma sensação serena de que algo dentro de mim se tinha ajustado, como uma engrenagem que volta a encaixar após muito tempo parado. O caminho já não era o mesmo, mas também eu não era. A mudança, percebi, não tinha sido apenas exterior. Tinha-se entranhado.

Já não era o mesmo trilho de antes, com as suas marcas previsíveis, as sombras familiares, os atalhos decorados. Mas ainda assim, era meu. E isso, mais do que conforto, trazia sentido. Porque não existe regresso igual. Cada regresso é uma estreia. Cada repetição, uma variação.

A natureza, a energia, o tempo, o mundo, tudo está em fluxo. Há um ritmo silencioso que nos escapa no dia a dia, mas que se revela quando o corpo abranda e os sentidos se abrem. Nesse compasso, não há espaço para resistir. Há espaço para aceitar, para ler os sinais, para nos adaptarmos sem nos perdermos.

O que importa não é preservar tudo como era, mas reconhecer a beleza do que está a tornar-se. Porque a verdadeira continuidade não está na permanência, está na aceitação tranquila da transformação.

No fim, não regressei ao ponto de partida. Regressei a um lugar novo, com os mesmos traços de antes, mas lido com olhos diferentes. E talvez seja esse o verdadeiro ciclo: o de aprender a ver outra vez aquilo que julgávamos conhecer.

Serviços de Fotografia

Tapa ao Sal

Temos ao seu dispor uma equipa com serviços de fotografia profissional, para capturar a sua história de forma autêntica e inesquecível.

O mapa do percurso: entre Alenquer e os arredores de Ota

O trajeto percorreu cerca de 39 km, com um ganho de elevação acumulado de 358 metros, numa volta circular entre Alenquer, zonas rurais de Casais Novos e os arredores da Base Aérea da Ota. O percurso combina troços de terra batida com acessos secundários e áreas onde a natureza já começou a reclamar os seus contornos.

Ao longo do caminho, a paisagem revela as marcas do tempo e da transição: trilhos outrora familiares cobertos de vegetação, novos obstáculos naturais e a presença imponente, mas integrada, de um parque solar que marca a paisagem e o pensamento.

Um percurso de BTT para quem gosta de observar a mudança com os pés no pedal e os sentidos bem despertos.

Mapa completo no Komoot: traçado, altimetria, pontos-chave e detalhes técnicos deste passeio entre Alenquer e os arredores de Ota.

Álbum de fotografias do passeio:

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Sérgio Santos

Fotógrafo e consultor de marketing digital em Tapa ao Sal, unindo a criatividade da fotografia com a energia do ciclismo. A minha paixão por pedalar pelos caminhos e paisagens locais proporciona uma perspetiva única que enriquece a minha abordagem tanto na captura de imagens quanto na formulação de estratégias digitais.

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