Cinematografia e Fotografia: A Interseção entre Composição e Narrativa Visual

A Influência do Cinema na Composição Fotográfica: Filmes que Inspiram

A composição no cinema e na fotografia partilha uma relação intrínseca, onde cada imagem revela uma narrativa profunda.

O cinema e a fotografia partilham uma relação profunda e simbiótica. Ambas as artes lidam com a captura da luz, a composição de imagens e a construção de uma narrativa visual que envolve o espectador de forma única. A cada fotograma, o realizador organiza elementos num espaço limitado para contar uma história, tal como o fotógrafo faz com a sua câmara. Ao longo do meu percurso como fotógrafo, encontrei no cinema uma fonte inesgotável de inspiração, especialmente em filmes que utilizam a composição como uma ferramenta poderosa para criar impacto emocional. Este artigo explora alguns filmes que, ao longo do tempo, influenciaram diretamente o meu trabalho no estúdio e no exterior, moldando a forma como vejo e capturo o mundo através da lente. Estes filmes são exemplos extraordinários de como a composição cinematográfica pode inspirar a prática fotográfica. Além disso, ligo estas referências a conceitos que já explorei no blog Tapa ao Sal, como o artigo sobre composição fotográfica, e ao artigo sobre a obra de Lev Tolstói, O Que é a Arte, que irá complementar esta reflexão.

1. The Mauthausen Photographer – O poder da narrativa na composição

The Mauthausen Photographer é um filme que me marcou profundamente pela sua temática e pela forma como a fotografia está no centro da narrativa. Baseado numa história verídica, o filme retrata Francisco Boix, um fotógrafo espanhol que arriscou a sua vida para documentar os horrores do campo de concentração de Mauthausen. O poder da fotografia neste contexto é inegável, servindo como testemunho de atrocidades, mas também como uma forma de resistência e preservação da verdade.

A composição deste filme é exemplar na forma como utiliza a luz e a sombra para intensificar o horror vivido pelas vítimas. Como fotógrafo, este filme ensinou-me a importância de usar a luz para contar histórias. Ao observar as cenas de Mauthausen, entendo como a colocação de elementos no enquadramento pode gerar tensão emocional que muitas vezes não está explícita no objeto fotografado, mas sim na forma como ele é capturado. Em ambiente de estúdio, utilizo essa lição para criar narrativas visuais que transcendem o imediato, procurando sempre uma profundidade emocional nas imagens.

A relação entre narrativa e composição que este filme explora pode ser aprofundada no artigo sobre composição fotográfica que publiquei no blog Tapa ao Sal, onde abordo como diferentes elementos visuais podem ser organizados para criar uma narrativa numa única imagem.

The Photographer Of Mauthausen - Netflix Trailer (English)
Trailer Netflix do filme “The Photographer Of Mauthausen”

2. Finding Vivian Maier – A descoberta de um olhar único

O documentário Finding Vivian Maier trouxe à luz o trabalho de uma fotógrafa desconhecida, mas cuja obra tem uma qualidade única e impressionante. Vivian Maier, uma ama que capturou momentos da vida quotidiana nas ruas de Chicago e Nova Iorque, tornou-se uma referência para mim, especialmente pela simplicidade e honestidade das suas composições.

O documentário destaca a forma espontânea com que Maier compunha as suas fotografias, captando momentos sem a interferência direta no que acontecia à sua volta. Isto leva-me a refletir sobre a importância de ser um observador atento, algo que aplico diariamente no meu trabalho, quer em estúdio, quer em exteriores. A fotografia de Maier é crua, sincera e, no entanto, extremamente cuidada em termos de composição.

A prática de Vivian Maier está profundamente relacionada com a visão de Tolstói sobre a arte, que abordei no artigo sobre a obra de Lev Tolstói. Para Tolstói, a arte verdadeira deve ser uma expressão sincera da vida e das emoções humanas, algo que Vivian Maier fazia sem esforço, ao captar momentos genuínos da vida quotidiana. Esta filosofia da arte como algo que transcende o esteticamente bonito e que procura o significado mais profundo da existência humana é algo que procuro replicar no meu trabalho.

Finding Vivian Maier Official US Theatrical Trailer #1 (2013) - Photography Documentary HD
Trailer do documentário “Finding Vivian Maier

3. Ansel Adams Documentary – A grandeza da natureza na composição

Ansel Adams é, sem dúvida, uma das maiores influências na minha abordagem à fotografia de paisagem. O documentário sobre a sua vida e obra explora em profundidade a sua técnica, nomeadamente o uso do sistema de zonas para controlar a exposição, bem como a sua obsessão pela perfeição na captura de paisagens naturais.

Adams ensinou-me a importância da paciência na fotografia. Cada uma das suas imagens é o resultado de uma preparação minuciosa e de uma apreciação reverente da natureza. Como fotógrafo, esta lição de paciência e de respeito pela luz natural influenciou diretamente o meu trabalho em sessões exteriores. A composição, no caso de Adams, é utilizada para transmitir a vastidão da natureza e a relação do ser humano com ela, algo que tento incorporar quando fotografo e, ambiente aberto.

Adams via a fotografia como uma forma de arte pura, e o seu trabalho espelha a crença de Tolstói de que a arte deve ser uma expressão autêntica daquilo que é significativo. A abordagem quase espiritual de Adams à paisagem pode ser um ponto de reflexão interessante no artigo sobre O Que é a Arte.

Filme documentário de Ansel Adams

4. O Sal da Terra – Fotografia como reflexo da humanidade

O Sal da Terra, o documentário sobre Sebastião Salgado, é outro filme que deixou uma marca profunda na minha forma de pensar a fotografia. Salgado, tal como Adams, utiliza o preto e branco para criar imagens de grande impacto emocional, mas o seu foco é o elemento humano e a sua luta pela sobrevivência em situações extremas.

O documentário mostra-nos a dedicação de Salgado a projetos de longo prazo, muitos dos quais focados em questões sociais e humanitárias. O que mais me impressiona no seu trabalho é a forma como ele utiliza a composição para dar dignidade às pessoas, mesmo em condições de sofrimento. Como fotógrafo, tento adotar essa mesma sensibilidade, especialmente quando trabalho com pessoas. A composição das suas fotografias, que muitas vezes coloca as pessoas no centro da imagem, reforça a sua importância e a sua resiliência.

O trabalho de Salgado está intrinsecamente ligado à ideia de arte como meio para expressar a verdade, uma noção que Tolstói defende em O Que é a Arte. Para Tolstói, a arte deve comunicar algo mais profundo sobre a condição humana, algo que Salgado faz magistralmente através da sua composição e escolha de temas.

The Salt of the Earth - Official Trailer
Trailer do documentário “O Sal da Terra

5. Roma (2018) – Poesia visual em cada fotograma

Quando vi Roma, de Alfonso Cuarón, fiquei imediatamente impressionado com a beleza de cada fotograma. O uso do preto e branco, a atenção aos detalhes e a forma como cada cena parece uma pintura meticulosamente composta tornam este filme uma verdadeira obra de arte visual.

A composição em Roma é utilizada para criar uma sensação de intimidade e nostalgia, mas também para explorar as dinâmicas sociais e políticas do México dos anos 70. O uso do preto e branco neste filme fez-me refletir sobre o poder das tonalidades e da iluminação para criar uma atmosfera emocional. Quando trabalho em sessões fotográficas, especialmente em estúdio, tento aplicar esses princípios, jogando com as sombras e a luz para criar uma narrativa implícita.

Cuarón utiliza a composição de forma a criar uma ligação emocional com o espectador, algo que também procuro fazer com as minhas fotografias. A estética cuidada do filme inspira-me a olhar para cada sessão fotográfica como uma oportunidade para criar uma peça de arte visual que ressoe emocionalmente com quem a vê.

ROMA | Official Trailer | Netflix
Trailer Netflix do filme “Roma (2018)”

6. Barry Lyndon (1975) – Pinturas em movimento

Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, é um dos filmes mais icónicos em termos de composição visual. Kubrick, conhecido pela sua obsessão com a perfeição, fez de cada cena deste filme uma autêntica pintura. A utilização de luz natural e a simetria das composições são impressionantes e continuam a inspirar-me.

O filme destaca-se pelo uso inovador de lentes que permitem filmar cenas inteiras à luz de velas, o que confere às imagens uma qualidade quase etérea. Como fotógrafo, a lição que extraio de Barry Lyndon é a importância da iluminação natural e da composição clássica. Tento incorporar esses princípios, especialmente em sessões fotográficas exteriores, onde a luz natural é a minha principal ferramenta.

A abordagem de Kubrick à composição lembra a precisão de um pintor clássico, o que se alinha com a visão de Tolstói de que a arte deve ser uma expressão meticulosa e autêntica daquilo que é significativo. Este filme é um excelente exemplo de como o cinema pode elevar a composição a uma forma de arte em si mesma.

Official Trailer - BARRY LYNDON (1975, Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Stanley Kubrick)
Trailer do filme “Barry Lyndon (1975)”

Conclusão

Estes filmes são uma fonte constante de inspiração para o meu trabalho fotográfico. Cada um deles oferece uma perspectiva única sobre a importância da composição na criação de imagens poderosas e evocativas. Seja através do uso da luz, da sombra, do preto e branco ou da organização dos elementos no enquadramento, todos estes filmes me ensinaram lições valiosas que aplico no dia a dia.

A relação entre a fotografia e o cinema é uma via de mão dupla: o cinema inspira a minha fotografia, e a minha prática fotográfica, por sua vez, enriquece a forma como aprecio e interpreto o cinema. Convido os leitores a explorar estas obras e a refletirem sobre como a composição pode transformar uma simples imagem numa peça de arte intemporal. Este artigo é também uma continuação de temas já abordados no blog Tapa ao Sal, como o artigo sobre composição fotográfica, e as reflexões sobre a obra de Tolstói, O Que é a Arte.

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Sérgio Santos

Fotógrafo e consultor de marketing digital em Tapa ao Sal, unindo a criatividade da fotografia com a energia do ciclismo. A minha paixão por pedalar pelos caminhos e paisagens locais proporciona uma perspetiva única que enriquece a minha abordagem tanto na captura de imagens quanto na formulação de estratégias digitais.

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