Deixei o Menir da Meada para trás com a sensação de ter tocado, por breves instantes, numa camada subterrânea do tempo. O sol já descia, sem pressa, e a estrada que se desenhava adiante prometia algo mais do que apenas regresso. A M1006-3 estendia-se como uma fita esquecida pelo vento, recortando campos e encostas com uma naturalidade silenciosa. Depois da imponência de um monumento com mais de sete mil anos, cuja experiência contei aqui: Menir da Meada, era tempo de escutar outra forma de memória: a da paisagem.
Da história ao horizonte aberto
Não se tratava apenas de pedalar. Havia ali um ritmo diferente, ditado não pela velocidade, mas pela cadência da luz a atravessar os ramos, pelo som da gravilha solta sob os pneus, pelo modo como a estrada se deixava vencer suavemente pelo relevo. A vegetação alta das bermas, as oliveiras dispersas e os muros de pedra negra recordavam que este Alentejo é mais do que postal. É memória viva.

A estrada M1006-3, mais do que um caminho
A M1006-3 não tem miradouros assinalados nem pontos de paragem recomendados. Mas oferece o essencial: presença. O asfalto, bem conservado apesar da solidão, guia o viajante por entre campos onde o dourado seco da erva parece cintilar. Nenhum carro cruzou o meu caminho. A estrada pertencia às sombras das árvores, aos pequenos movimentos da vida escondida nas sebes, ao som distante de um rebanho invisível. Tudo era vasto e contido ao mesmo tempo. À minha esquerda, um velho portão de ferro enferrujado abria-se para um campo lavrado, ainda quente de sol.
Um vale escondido
Subitamente, a estrada mergulhou. O som mudou. A frescura adensou-se. A vegetação cresceu em redor de um pequeno riacho que, entre curvas, atravessava a terra como uma assinatura discreta da natureza. Senti vontade de parar. Ali, onde a luz filtrada se decompunha em verdes e amarelos, parecia que o tempo hesitava.
Era um vale discreto, escondido ao olhar apressado, mas tão pleno de presença como o próprio menir. A água corria mansa, espelhando as copas. Pequenos peixes cruzavam-se nos bancos de areia, e insectos desenhavam geometrias sobre a superfície. Não fotografei. Apenas permaneci.
Um postal que vive
De volta à estrada, o que se via não era para ser visto: era para ser absorvido. O Alentejo ali não era o das brochuras nem o dos roteiros gourmet. Era o Alentejo das cancelas enferrujadas, das pedras empilhadas com propósito, dos carvalhos e sobreiros que nunca deixaram de estar. O caminho seguia curvo, com muros de xisto que retinham o calor do dia e libertavam-no em silêncio.
Vi um campo de restolho, quadrado, pontuado por fardos como se fossem pensamentos deixados por um poeta camponês. Era tudo tão simples que se tornava raro.

Ideal para quem?
Para quem viaja de bicicleta, esta estrada é uma benção. Plano suave, sombra espaçada, superfície regular e um sossego que se ouve. Para quem caminha, é um percurso contemplativo. Para quem conduz, é o tipo de desvio que transforma um dia comum num dia com história.
Recomendo percorrê-la ao fim da tarde, quando a luz baixa desenha sombras compridas e tudo parece desacelerar. Não é preciso mapa: basta escutar o caminho.
Conclusão
Nem sempre é o destino que nos marca. Às vezes é a estrada que se cola à memória, silenciosa e fiel. A M1006-3 é isso mesmo: um lugar onde se passa e por onde se fica, ainda que apenas em pensamento. E quando dou por mim a reviver este percurso, é com a certeza de que, ali, encontrei mais do que um caminho: encontrei uma pausa.

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🚴 O percurso pela M1006-3
Este foi o trajeto que fiz numa tarde quente de verão, após visitar o Menir da Meada. A estrada M1006-3 revelou-se mais do que uma simples ligação entre lugares, foi um mergulho lento na essência do norte alentejano.
A estrada serpenteia por entre campos de sequeiro, muros de pedra, pequenas ribeiras e sombras frescas de árvores maduras. O alcatrão é estreito, mas suficiente para deixar passar quem, como eu, leva o tempo a pedalar devagar. É um caminho que não se apressa, convida à escuta, ao olhar e à descoberta.
Um percurso ideal para quem procura estar em movimento… sem sair do silêncio.
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Álbum de fotografias da EM 1006-3:
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