Durante algum tempo, as Caldas da Felgueira foram mais do que um refúgio termal, tornaram-se um ponto de interrogação numa paisagem de silêncio e vapor. Ali, entre a montanha e o rio, surgiram vozes que não pertenciam à terra. Crianças loiras brincavam sob o olhar quieto das mães, carrinhos de bebé cruzavam o largo do hotel como se pertencessem a outro país, e nas noites quentes de verão havia sessões de cinema onde o idioma era outro e os risos vinham hesitantes.
O fim da guerra deixara um mundo em ruínas. Mas naquele recanto da Beira Alta, parecia que o tempo se recusava a seguir em frente. Os alemães tinham chegado, não como invasores, mas como hóspedes, discretos, contidos, quase espectrais. E Portugal, ainda a lidar com os seus próprios fantasmas, olhava com desconfiança.

As termas, outrora lugar de cura e repouso, tornaram-se palco de uma convivência tensa. À superfície, tudo era sossego. Mas bastava escutar com atenção: o choro das crianças no largo, as conversas abafadas nas varandas, o murmúrio das fontes que já ali estavam muito antes de qualquer guerra. E no meio de tudo isso, o Grande Hotel, imóvel, como quem guarda segredos há demasiado tempo.
Um refúgio silencioso no pós-guerra
Depois da guerra, o mundo parecia suspenso. As fronteiras tinham sido redesenhadas à pressa, os culpados ainda estavam a ser contados, e muitos procuravam esconder-se nas dobras discretas da Europa. Portugal, neutro por fora mas profundamente atento, tornou-se uma dessas dobras.
Entre 1945 e 1948, dezenas de alemães encontraram refúgio em solo português. Vieram discretamente, com bagagens diplomáticas e silêncios bem ensaiados. Alguns tinham ligações evidentes ao regime nazi, outros chegaram da Argentina, onde a diplomacia alemã procurara reerguer-se sob outras bandeiras. Nas Caldas da Felgueira, a água era quente e os dias pareciam parados. O cenário ideal para quem precisava desaparecer sem deixar rasto.

Foi o Estado português, através da PIDE, que suportou as despesas. Alojamento, alimentação, pequenos luxos, tudo pago como parte de um acordo tácito entre vigilância e hospitalidade. Não era generosidade. Era controlo. A presença destes estrangeiros nas termas, nas pensões e no Grande Hotel das Caldas da Felgueira era apenas uma face de uma operação maior: manter os alemães visíveis, mas quietos. Enquanto, nos bastidores da política internacional, se discutia o que fazer com eles, repatriar, esquecer, ou simplesmente deixá-los envelhecer ao sol.
E assim se viveu essa estranha normalidade, onde os ecos de uma guerra global se diluíam no vapor das águas termais.
O Grande Hotel das Caldas da Felgueira: entre o vapor e o desconforto
O Grande Hotel erguia-se com dignidade discreta, entre colinas suaves e um silêncio que parecia sempre prestes a ser interrompido. Lá dentro, os corredores tinham o cheiro dos móveis encerados e das toalhas húmidas, e o ar era denso, não apenas pelo vapor termal, mas pela sensação constante de que se estava a esconder alguma coisa.
Foi ali que se instalou a família Von Plocki, nome que ninguém sabia pronunciar corretamente mas que todos repetiam em surdina, com desconfiança. Viam-se na varanda a certas horas, os adultos imóveis como retratos antigos, e as crianças, essas, enchiam o largo em frente com gritos agudos e ininterruptos. Um parque improvisado fora montado com grades de madeira, cordas e almofadas, uma espécie de recreio provisório para manter os mais novos ocupados, longe dos salões e dos boatos.
As mães alemãs, impassíveis, deixavam-nos ali, entre os choros e os jogos. Certa vez, uma mulher do povo tentou consolar um miúdo que chorava sem parar. Alertou a mãe com gestos e palavras simples. A resposta foi serena, quase clínica: “Não faz mal. As crianças têm de chorar duas horas por dia.” E voltou a sentar-se, indiferente.
À noite, o salão do hotel enchia-se para uma espécie de ritual moderno: cinema ambulante. Homens e mulheres de expressão neutra ocupavam as cadeiras em fila, alguns com mantas nos joelhos, outros com um leve torcer de lábios. Numa dessas noites, passou “O Grande Ditador”, de Chaplin. Um filme que fazia rir o mundo inteiro, mas ali, naquele salão, o riso saía contido, hesitante, quase proibido. A ironia pairava no ar como vapor quente. Terá sido coincidência? Ou um recado de alguém que sabia mais do que dizia?
Para os moradores das Caldas, tudo isto era um incómodo que se somava aos que já conheciam. Viver com pouco era hábito, mas ter de partilhar a terra com estrangeiros que tinham, de alguma forma, pertencido ao lado errado da História… isso era mais difícil de engolir.
O hotel, porém, resistia. Com as suas janelas altas, os quartos de madeira escura e o rumor constante da água a correr nos canos, era mais do que um edifício: era uma testemunha muda. Sabia tudo o que se passava, e guardava para si.
Convivência difícil: entre a pedra e o silêncio
O país, à época, vivia em contenção. Não havia abundância, só resistência. A comida era pouca, o trabalho duro, os dias longos e os invernos ainda mais. A chegada dos alemães não trouxe consolo, trouxe estranheza. E ressentimento.
As famílias locais olhavam-nos com olhos gastos. Não por curiosidade, mas por cansaço. Quem vinha de um país derrotado não devia parecer tão bem vestido, nem tão bem alimentado. Era uma afronta velada. A paz mal começara e já se sentia desequilibrada.
O contraste era demasiado visível. De um lado, as mulheres portuguesas lavavam roupa nos tanques com as mãos gretadas e os joelhos frios. Do outro, as mães alemãs descansavam enquanto os filhos gritavam no largo… livres, inconscientes, inexplicáveis. A frase que se espalhou como rumor e depois se confirmou com espanto, “as crianças têm de chorar duas horas por dia”, tornou-se símbolo dessa diferença insondável. Aqui, o choro era contido. Lá, era permitido.
Chegou a correr a notícia de que, numa aldeia próxima, se juntaram pedras. A raiva tinha forma. Mas não houve apedrejamento. Talvez por contenção. Talvez por medo. Talvez por saberem que, mesmo com pedras nas mãos, nada mudaria o desconforto profundo de ter de partilhar o espaço com quem, em silêncio, representava uma guerra que não era deles, mas cujas consequências sentiam todos os dias.
Alguns fingiram não ver. Outros mantinham-se atentos, como sentinelas improvisadas, observando os movimentos das famílias estrangeiras, medindo gestos, traduzindo olhares. Havia quem dissesse que eram perigosos. Outros diziam que eram apenas sombras de um tempo perdido. Mas todos sabiam, no fundo, que aquela convivência era apenas temporária. E que o silêncio era a única coisa que, naquele tempo, os unia.
Fontes e testemunhos: memórias à superfície
Nem todas as histórias chegam em voz alta. Algumas vêm de longe, atravessam décadas em silêncio e reaparecem em fragmentos. Uma frase dita à porta de casa, uma memória ressuscitada por quem ainda se lembra de olhar para cima, para as janelas do Grande Hotel.
📖 O livro “No Rescaldo da Guerra”
Foi precisamente o que fez José Mouraz Lopes, que reuniu esses fragmentos e lhes deu corpo no livro No Rescaldo da Guerra – Alemães nas Caldas da Felgueira (1945–1948), publicado em 2024. O autor vasculhou arquivos, escutou ecos, cruzou registos da PIDE com memórias soltas de quem viveu perto daquele estranho interregno.
A investigação revela como Portugal, ainda neutral aos olhos do mundo, manteve sob vigilância diplomatas alemães e suas famílias, numa espécie de quarentena política, com as Caldas da Felgueira como pano de fundo.
📰 A reportagem do Expresso
Anos depois, o jornal Expresso voltou a trazer esse episódio ao de cima. Numa reportagem sensível e minuciosa, recuperou testemunhos de habitantes locais, confrontando documentos oficiais com vozes que nunca chegaram a ser ouvidas em público.
Ali, confirmam-se os pagamentos da PIDE, as ordens para manter os estrangeiros discretos, o desconforto da população e o cuidado em evitar escândalos. Tudo se passou à vista de todos, mas sempre sob uma névoa de conveniência e silêncio.
🗣️ A memória de dona Nené
Há também quem se lembre ainda, sem precisar de ler. Como Dona Nené, que ajudava na pensão da família. Recorda-se das senhoras alemãs, do modo como caminhavam com os filhos pela rua, da frieza calculada nos gestos e do sotaque que tornava qualquer palavra irreconhecível. “Eram frios. Mas havia um respeito mútuo. Não havia festas.”
Era essa a medida da convivência: sem calor, mas sem confrontos diretos. Um equilíbrio de distâncias. Os habitantes locais sabiam que os estrangeiros ali estavam por razões que ninguém explicava bem. E os alemães, por sua vez, pareciam viver num tempo suspenso, entre o que tinham deixado para trás e o que ainda não sabiam se podiam alcançar.
Ecos que ficam
Hoje, quem chega às Caldas da Felgueira vê apenas o que o tempo deixou ficar: o vapor que sobe lento das águas, a arquitetura discreta de um hotel centenário, os corredores que convidam ao silêncio. Tudo parece sereno, alinhado com a ideia de repouso. Mas há histórias que não se veem e, ainda assim, moldam o lugar.
O Grande Hotel continua a receber hóspedes como sempre fez, com toalhas dobradas com precisão e janelas que se abrem para a paisagem da serra. Mas as suas paredes já ouviram outras línguas. Já abrigaram gente que não veio em busca de paz, mas de esquecimento. E é esse passado que, mesmo não sendo anunciado, ainda paira no ar como o cheiro mineral da água termal.
Não há placas a lembrar o que ali se viveu. Não há guias turísticos a contar que, durante anos, famílias alemãs viveram ali, observadas em silêncio por uma vila desconfiada. Mas quem presta atenção, quem caminha devagar e escuta, talvez perceba que aquele sossego tem camadas. E que, por trás da tranquilidade visível, há memórias que se recusam a desaparecer.
Nas Caldas da Felgueira, o presente vive em harmonia com esse passado quieto. Um passado que não exige reconhecimento, apenas espaço. Porque há lugares que guardam as suas histórias como se fossem parte da paisagem, discretas, mas inseparáveis.
Um silêncio que não passa
A História, essa que enche livros e praças com datas e estátuas, raramente presta atenção aos lugares onde tudo parece pequeno demais para contar. Mas é nesses intervalos, nos hotéis esquecidos, nas vilas que nunca foram palco , que muitas vezes se esconde o que realmente interessa.
Nas Caldas da Felgueira, nada explodiu, nada ruiu. Mas alguma coisa mudou, devagar. Mudou nos gestos contidos das famílias locais, na maneira como se olhava quem chegava de fora, nos silêncios prolongados entre uma sessão de cinema e a próxima ida às termas. Mudou nas histórias que ficaram por contar, talvez por pudor, talvez por falta de quem perguntasse.
A história dos alemães naquele recanto beirão não tem grandes feitos, nem heróis, nem finais épicos. Tem apenas o peso do que ficou suspenso. E é esse peso que, ainda hoje, se sente no corredor do hotel ao fim da tarde, ou no eco de um choro distante que ninguém consegue situar no tempo.
Porque há memórias que resistem à cronologia e se agarram aos lugares. E há lugares, como este, que nos ensinam que a história não vive só nos livros, mas também no modo como a água corre, como o silêncio se instala, e como o passado insiste em não passar.

Serviços de Fotografia
Tapa ao Sal
Temos ao seu dispor uma equipa com serviços de fotografia profissional, para capturar a sua história de forma autêntica e inesquecível.
Partilha esta história com quem gosta de descobrir o lado escondido de Portugal
Nem todas as histórias se contam nos manuais. Algumas vivem nos lugares, nos silêncios e nas memórias que resistem ao tempo, como esta, das Caldas da Felgueira.
Se o artigo fez-te ver este destino com outros olhos, partilha-o com quem também aprecia os detalhes que quase ninguém vê. Pode ser um amigo curioso, um familiar que gosta de história, ou alguém que ainda não conhece a riqueza escondida de Portugal.
Basta um gesto simples para manter viva uma memória rara.
Obrigado por leres até ao fim. Volta sempre com tempo.




