Partimos de Nisa num dia chuvoso. Loucura? Talvez. Mas com fé e vontade, tudo parece fazer sentido.
Era 12 de outubro de 2016. A vila de Nisa estava envolta em nuvens carregadas, mas isso não nos travou. Havia uma certeza que nos empurrava para a estrada: queríamos chegar a Fátima.
Na véspera do que é considerado um dos dias mais marcantes da história da fé em Portugal, o dia do chamado Milagre do Sol, pusemo-nos a caminho.
É curioso como estas datas parecem alinhar-se com os nossos passos. Como se, de alguma forma, fizéssemos parte dessa história que começou em 1917 com três crianças e uma mensagem vinda do Céu. (Se nunca leu sobre esses acontecimentos, descubra o contexto histórico e espiritual das Aparições de Fátima).
A partida: quando a fé é mais forte que o tempo
Estava de chuva, mas não arredámos pé. Agasalhados, mochila às costas e terço na mão, deixámos Nisa com o coração cheio de vontade. Pouco a pouco, mais pessoas foram-se juntando, vindas das aldeias em redor. Os rostos eram diferentes, mas o destino era o mesmo.
No olhar de cada peregrino havia algo mais do que fé. Havia memórias, promessas, pedidos. E um silêncio cúmplice que só quem já caminhou assim conhece.
Passos que pesam no corpo e aliviam a alma
À medida que avançávamos, o cansaço físico tornava-se mais leve. Talvez porque, entre orações e conversas soltas, íamos libertando aquilo que nos pesa por dentro.
Pensávamos na vida. No que nos faz felizes e no que nos inquieta. No que gostaríamos de mudar.
Era como se, em cada passo, deixássemos para trás um bocadinho daquilo que já não nos serve.
E, inevitavelmente, vinham-nos à mente as imagens dos pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta, que há mais de um século, também percorriam caminhos de terra batida, com uma coragem serena e uma fé inexplicável. (É impossível não recordar aqueles seis encontros com Nossa Senhora, descritos ao pormenor nas crónicas e testemunhos da época.)
Chegar a Fátima: onde o silêncio diz tudo
Já era noite quando avistámos as luzes do Santuário. O coração bateu mais forte. Não havia dúvida: estávamos perto da casa de Nossa Senhora.
O corpo pedia descanso, mas o espírito estava desperto. Na entrada do recinto, sentámo-nos nos bancos e cada um partilhou o que trazia no farnel. Sardinhas assadas, ovos cozidos, pão caseiro, enchidos. Tudo em bom convívio e sotaque alentejano.
As risadas escapavam-se entre frases como “Dé tá fri!”, mas a verdade é que o coração estava quente.
Uma noite de fé, luz e silêncio
Quando os sinos marcaram as 21h00, o ambiente transformou-se. Começou o terço na Capelinha das Aparições.
Ali mesmo, onde Lúcia disse ter visto Nossa Senhora pela primeira vez. Onde milhares de pessoas, ano após ano, regressam em silêncio e oração.
Olhámos em redor e vimos um mar de velas acesas. Uma luz quente e serena que parecia aquecer tudo à sua volta.
Pensámos nas dores que cada um ali trazia. Nas perdas, nos sonhos, nos agradecimentos. Na procura por algo que nem sempre se sabe nomear, mas que se sente.
E quando o andor com a imagem de Nossa Senhora passou por nós, houve um momento em que tudo parou. Cada um falou com a Nossa Senhora no mais íntimo do coração.
O regresso: os pés descansam, mas a alma continua a caminhar
No final, houve ainda missa em latim, um gesto de acolhimento aos muitos peregrinos estrangeiros que partilham connosco esta experiência.
Era já madrugada quando subimos para o autocarro de regresso.
Os pés iam bem mais cómodos, mas sabíamos que aquela caminhada foi mais do que física. Foi um mergulho interior. Um encontro connosco. Um regresso àquilo que realmente importa.
No dia seguinte, assinalavam-se 99 anos desde a sexta aparição, a última, aquela em que milhares de pessoas afirmam ter visto o sol dançar no céu. Um acontecimento conhecido mundialmente como o Milagre do Sol, e que até hoje continua a ser estudado e admirado. (Se quiser compreender melhor esse momento histórico e o impacto que teve, deixo-lhe aqui o nosso artigo sobre as Aparições de Fátima).
Álbum de fotografias da peregrinação:
Já fez uma peregrinação a Fátima? Ou gostava de fazer um dia?
Cada caminhada é diferente, cada intenção tem um peso e uma luz própria.
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