Há livros que se compram, outros que nos emprestam, e há aqueles que chegam como se nos conhecessem, sem terem sido chamados. Foi assim que recebi “Breve História do Porco da Antiguidade às Salsicharias de Alpalhão”, com o peso discreto de um presente sincero e uma dedicatória manuscrita, onde cada letra parecia saída de um tempo mais lento.
O autor, Manuel Pedro Dias, não me conhecia. Mas conhecia Alpalhão. E talvez tenha sido isso que o levou a colocar este livro nas minhas mãos. Uma forma silenciosa de continuar a conversa que iniciámos, sem saber, no artigo “Alpalhão: o que visitar”. Há lugares assim: tão pequenos que todos os gestos se tornam significativos. E tão fundos que um simples livro pode ser uma forma de regressar.

O que conta este livro
O título parece uma provocação: Breve História do Porco da Antiguidade às Salsicharias de Alpalhão. Mas não se engane quem julgar o livro apenas pelo que o nome sugere. O que ali está reunido não é apenas a cronologia de um animal doméstico, é o retrato de uma relação profunda entre território, sustento, rituais e linguagem.

O livro percorre séculos com naturalidade, como quem atravessa uma feira antiga: cada capítulo é uma banca diferente, onde se vendem histórias, crenças e símbolos. Está dividido em quatro partes, com entradas que tanto podiam estar numa enciclopédia como num serão de inverno à lareira. A leitura surpreende por ser mais literária do que técnica, e mais sensível do que científica.
Entre os muitos temas, alguns destacam-se pela singularidade:
- A mitologia do porco nas culturas grega, romana, nórdica e egípcia, onde o animal aparece ora como impuro, ora como sagrado.
- A secção “Quem disse que o porco não é limpo?”, que podia ser um ensaio de filosofia rural.
- Um capítulo inteiro sobre o porco nas artes: da escultura à filatelia, passando pela literatura e pela azulejaria.
- A descrição detalhada da matança do porco, não como espetáculo, mas como rito de comunidade: cru, sim, mas também cheio de respeito.
- A história das alcatraias e das salsicharias locais, onde a técnica se cruza com a identidade.
- E, claro, o célebre arroz de cachola, prato genuinamente alpalhoense que em 2023 ganhou o Prémio Cinco Estrelas Regiões, e que aqui surge acompanhado de uma fotografia… tirada por nós.
É um livro que nos devolve a ideia de que a história também se escreve com sangue, fumo, lendas e louça de barro. E que há mais humanidade num chouriço bem curado do que em muitas dissertações.
A fotografia de Tapa ao Sal no livro
Não há muitos avisos quando algo nosso aparece num lugar inesperado. Abrimos uma página e lá está, uma imagem familiar, como quem nos acena discretamente de dentro do papel. No caso, era o arroz de cachola. Um prato denso, escuro, servido numa malga de barro, com a textura de quem não tem pressa e o sabor de quem vem de longe.
A fotografia é da nossa autoria, publicada originalmente no artigo “Restaurante Regata, uma homenagem ao povo alentejano”, depois de uma refeição com alma numa casa que sabe o que faz. Foi aí que o autor a encontrou. Escreveu-nos a pedir autorização para a usar no livro, com simplicidade, com gentileza, com cuidado. E nós dissemos que sim, claro. Porque os gestos que nascem do respeito devem sempre ter resposta à altura.

Agora, essa imagem vive impressa num capítulo dedicado ao prato e à tradição. O arroz de cachola, que venceu o Prémio Cinco Estrelas Regiões em 2023, aparece como merece: entre palavras que o honram, servido com memória. É feito com arroz, sangue, cachola e cominhos, e acompanhado por carne de porco frita. Um prato de textura densa, sim, mas também de identidade densa.
Ver a fotografia ali, com crédito ao Tapa ao Sal, foi um momento de orgulho discreto. Não por vaidade, mas por validação: o que fazemos com atenção pode, por vezes, chegar mais longe do que esperávamos. E ganhar nova vida num livro que, como este, nasceu do amor à terra.
Um autor com uma vida de escrita e memória
Há pessoas que escrevem para publicar. Outras escrevem para organizar o mundo. E depois há aquelas que escrevem porque sabem que a memória, quando não se regista, dissolve-se. Manuel Pedro Dias parece pertencer a esta última espécie.
Nasceu em Alagoa, mas foi em Alpalhão que se fez homem e, talvez, também cronista. Durante décadas trabalhou no setor bancário, profissão de números e exatidões. Mas o que verdadeiramente o movia era o que não cabia nas contas: a história local, a vida comum, os fragmentos esquecidos que compõem uma terra.
Não foi apenas um observador. Foi também colecionador, filatelista, maximafilista. Um homem que viu valor onde outros passariam depressa. Recebeu prémios por isso, em Portugal, no estrangeiro, em exposições temáticas onde a imagem e a palavra se encontram em selos e postais como se fossem pequenas janelas para o mundo. E viajou muito. Sempre atento. Sempre a recolher sinais do tempo.
Mas é na escrita que a sua presença se torna mais nítida. Desde 2003, editou 34 livros. Alguns sobre a guerra, outros sobre famílias, muitos sobre Alpalhão. Falou da banda filarmónica, dos sapateiros, das alcunhas, das tradições, das casas antigas. Tudo sem pretensão, como quem organiza um arquivo pessoal, mas deixando, sem o saber, um legado para todos.
Lê-lo é como escutar alguém à sombra, com tempo para contar. E isso, nos dias que correm, já é uma forma de resistência.
Uma ponte entre gerações que amam a terra
Há quem registe para não esquecer. E há quem registe para que outros possam lembrar também. A certa altura, percebi que o que fazemos com o Tapa ao Sal, com cada fotografia escolhida, cada texto escrito ao ritmo da terra, não é tão diferente do que o autor deste livro tem feito, ao longo de décadas, à sua maneira.
Não nos conhecíamos. Mas há um traço comum no que nos move: a vontade de guardar o que é invisível à pressa. De nomear aquilo que se esconde no hábito. De dar forma, palavra, imagem e lugar às memórias que vivem entre os telhados gastos, as mesas cheias, os nomes que já não se ouvem nas ruas.
Ao folhear este livro, senti que estava a atravessar uma ponte, uma ponte feita de páginas e caminhos paralelos. De um lado, a escrita de quem viu a vila mudar e quis deixar rasto. Do outro, o olhar atento de quem a visita com respeito e curiosidade. No meio, Alpalhão: inteiro, persistente, cheio de matéria.
Porque, em cada palavra e em cada imagem, fica claro: há lugares que merecem ser contados, e nós estamos aqui para isso.
Queres conhecer melhor Alpalhão?
Se este livro é uma porta de entrada para a história, o nosso guia sobre Alpalhão é um convite a percorrer as suas ruas, olhar as janelas, escutar os silêncios e conversar com quem lá vive.
Escrevê-lo foi caminhar devagar. Parar junto ao jardim da Devesa, atravessar a zona histórica onde algumas casas resistem ao tempo, admirar o trabalho dos artesãos, e sentir que há ali algo que não se explica só com palavras. Um lugar onde até o ritmo da sombra parece mais lento.
No artigo “Alpalhão: o que visitar entre ruas silenciosas, tradições e paisagens com alma”, partilhamos o que vimos, sentimos e aprendemos. Não é um roteiro turístico — é uma viagem curta, mas cheia, feita com os olhos abertos e o coração predisposto a escutar.
Porque há vilas que se atravessam. E outras, como Alpalhão, que se deixam habitar por dentro.

Serviços de Fotografia
Tapa ao Sal
Temos ao seu dispor uma equipa com serviços de fotografia profissional, para capturar a sua história de forma autêntica e inesquecível.
Partilhe connosco… e ajude a preservar a memória de Alpalhão!
Já conhecia o trabalho de Manuel Pedro Dias?
Teve algum familiar ligado às salsicharias, às alcatraias ou à tradição da matança?
Lembra-se de histórias, expressões ou receitas que fazem parte da alma de Alpalhão?
Conte-nos nos comentários. Às vezes, uma memória partilhada é o início de muitas outras que não podem ficar esquecidas.
Se este artigo lhe tocou, partilhe-o com quem valoriza o que é feito com tempo, com verdade e com afeto. Pode ser um familiar, um vizinho que viveu tudo isto de perto, ou alguém que nunca foi a Alpalhão, mas talvez precise de sentir que lugares assim ainda existem.
Quando preservamos as histórias locais, não guardamos só o passado, damos ferramentas ao futuro.
Este livro, tal como o nosso blog, é um gesto simples de resistência: contra o esquecimento, a pressa e a indiferença.





