Imagem do Centro Geodésico de Portugal no Picoto da Melriça, em Vila de Rei, com vista panorâmica da paisagem ao redor, incluindo a Serra da Lousã e a Serra da Estrela ao fundo, representando o ponto central do país.

Centro Geodésico de Portugal: Explorar o coração do país

Descubra o coração geográfico de Portugal e as histórias que ele guarda.

Deixo para trás a Sertã, carregado de memórias e dias preenchidos pelo calor da hospitalidade e pela serenidade da paisagem, pus-me a caminho do centro geodésico do país. Vila de Rei estava a algumas dezenas de quilómetros e, ao avistar os contornos da Serra da Lousã e, ao longe, a linha das montanhas da Serra da Estrela, senti a curiosidade pela precisão daquele ponto: o centro de Portugal, simbolizado num marco que fica no topo de um monte, o Picoto da Melriça.

Quando finalmente cheguei, o cenário que se abriu à minha frente era vasto e surpreendente. O Picoto da Melriça ergue-se com uma presença modesta mas determinada, uma elevação discreta de 600 metros que, contudo, oferece uma vista como nenhuma outra. Foi interessante pensar que, num país cuja forma geográfica já inspira um certo senso de unidade, existia este ponto matematicamente exato, determinado por coordenadas precisas, onde as linhas invisíveis da latitude e da longitude se cruzam, marcando o centro da nossa massa territorial.

Marco Geodésico do Centro de Portugal no Picoto da Melriça ao final da tarde, com céu dourado e vista para a paisagem montanhosa ao redor.
O Marco Geodésico do Centro de Portugal, envolvido pela luz do entardecer, no coração de Vila de Rei. Autor: Sérgio Santos

O que significa um marco geodésico?

Primeiro, foi necessário entender o que realmente é um marco geodésico.

Embora estes marcos sejam comuns em vários pontos montanhosos e costeiros, simbolizam algo mais do que uma simples referência geográfica. No caso do Picoto da Melriça, a localização foi escolhida pela sua elevação, mas o conceito de centro é, em última análise, uma convenção geométrica. Ali, em Vila de Rei, os eixos das coordenadas X e Y convergem para determinar um ponto central de Portugal Continental, próximo, mas não exatamente, ao cume onde agora se ergue o pinoco branco e preto que marca o local.

Enquanto caminhava pelo terreno irregular até à base do marco, imaginava os cartógrafos e topógrafos, cuja paciência e exatidão com a linha e o ângulo permitiram a identificação deste ponto tão especial. De alguma forma, estar no centro geodésico era estar não só no coração físico do país, mas também no epicentro de todas as medições e trajetórias que definem as nossas fronteiras.

Vista panorâmica da paisagem ao redor do Centro Geodésico de Portugal em Vila de Rei, com montanhas, campos verdes e céu aberto.
Paisagem que envolve o Centro Geodésico de Portugal em Vila de Rei, onde se destacam as montanhas e os campos sob um céu amplo. Autor: Sérgio Santos

Onde fica o centro geodésico de Portugal?

O Centro Geodésico de Portugal fica no concelho de Vila de Rei, um local modesto que parece ter sido escolhido não apenas pela sua localização, mas pela sua simplicidade. Ali, o pilar de 20 metros de altura, uma estrutura imponente na sua simplicidade, assinala o ponto exato que muitos visitantes procuram, por curiosidade ou pelo desejo de marcar uma experiência única. A localização não é apenas um ponto de curiosidade geográfica, mas também um lugar de reflexão. Deste ponto, temos uma visão de 360 graus que varre toda a região, englobando as serras e aldeias que se distribuem ao longo do horizonte.

À minha direita, a Serra da Lousã destacava-se com as suas aldeias de xisto, aqueles pequenos conglomerados de pedras castanhas, amontoadas e encravadas nos recantos da serra. Do lado esquerdo, e ao longe, a Serra da Estrela surgia, a sua silhueta elevando-se contra o céu claro, como se vigiasse pacientemente as terras baixas e onduladas. Ambas as serras, distantes, pareciam vigiar o centro geodésico como guardiãs antigas de uma vastidão que, de outra forma, poderia perder-se no anonimato do espaço.

O que encontrar no centro geodésico de Portugal?

Estar ali, no centro, foi uma experiência de absorção total. Para além do marco imponente, o Picoto da Melriça tem trilhos que permitem explorar um pouco mais da envolvente. Quem visita este local encontra não apenas a paz e o silêncio das altitudes, mas também a sensação de que cada detalhe da paisagem parece ter sido meticulosamente posicionado, como um quadro vivo que convida à contemplação.

No alto, é inevitável querer tirar uma fotografia para marcar a presença. Curiosamente, todos os visitantes se aproximam do marco, erguendo câmaras e telemóveis, numa tentativa de capturar aquele momento de centralidade. Parece haver uma necessidade de registrar o momento em que se toca no centro do país, como se fosse uma validação pessoal de que, por um breve instante, se ocupou o espaço que é, simbolicamente, o ponto de equilíbrio de toda a nossa terra.

O ar, lá em cima, é diferente. Fresco, revigorante, com aquele toque de altitude que purifica a respiração. Em redor, a vegetação é densa, verde e vibrante, e o som do vento nas árvores cria uma melodia sutil que complementa a experiência. É um lugar que convida ao silêncio, à pausa, como se pedisse aos visitantes que se reconectassem com a essência simples da paisagem.

Imagem a preto e branco de uma rosa dos ventos em calçada portuguesa, situada no Centro Geodésico de Portugal em Vila de Rei.
Rosa dos ventos em calçada portuguesa no Centro Geodésico de Portugal, capturada em preto e branco, refletindo a centralidade e precisão do local. Autor: Sérgio Santos

A conexão entre a Sertã, a Serra da Lousã e a Serra da Estrela

A minha visita ao centro geodésico não foi um evento isolado; foi a continuação de uma viagem pela região. Os dias passados na Sertã, com os seus rios e montes, tiveram um papel de prelúdio, como se cada destino nesta viagem fosse uma peça de um puzzle maior, que se uniria ao chegar ao Picoto da Melriça. Ao longe, a Serra da Lousã com as suas aldeias escondidas, e a Serra da Estrela com os cumes altos e os invernos rigorosos, pareciam ser ecos visuais das experiências passadas e futuras, numa narrativa contínua de paisagens e culturas.

Ligar a Sertã ao Centro Geodésico, e este aos montes da Lousã e à majestosa Estrela, era como desenhar uma linha invisível, unindo as partes de um mapa geográfico e emocional, onde cada lugar tinha o seu papel, o seu contributo para a totalidade do território.

Imagem de um painel de azulejo com a descrição do Centro Geodésico de Portugal em Vila de Rei.
Painel de azulejo no Centro Geodésico de Portugal, em Vila de Rei, descrevendo o significado geográfico e histórico do ponto central do país. Autor: Sérgio Santos

A história e significado do centro

É impossível estar no Centro Geodésico de Portugal e não refletir sobre o significado deste local. Cada pedaço de terra que vemos a partir deste ponto tem a sua história, a sua identidade. Os povos que cruzaram estas colinas, os agricultores que cultivaram estas encostas, e os viajantes que, ao longo dos séculos, procuraram refúgio nestes montes, todos contribuíram para criar o mosaico humano e cultural que hoje vemos e sentimos. Estar ali, no centro, é estar no coração de uma terra que vive, respira e nos recebe com um silêncio que não é ausência, mas uma presença discreta e profunda.

Reflexão final: O ponto de encontro com o país

De regresso ao carro, deixei o centro geodésico com uma sensação de plenitude, como se aquela experiência tivesse colocado o resto do país em perspetiva. Cada quilómetro percorrido na volta para casa foi marcado pela recordação daquele momento, daquela vista e daquela atmosfera de altitude. O Centro Geodésico de Portugal não é apenas um ponto no mapa; é um lugar que oferece uma visão privilegiada do que significa estar no centro de algo maior, de uma paisagem vasta e interconectada.

Se procura uma experiência que o liga ao território e à sua essência, visitar o Picoto da Melriça é mais do que ver uma paisagem – é ver o país na sua totalidade, com tudo o que ele representa.

Álbum de fotografias do centro geodésico de Portugal:

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Sofia

Autora de guias de viagem no Tapa ao Sal, partilha experiências autênticas pelos destinos de Portugal. Com mais de 180 artigos publicados, alia paixão pela gastronomia e cultura portuguesa a uma escrita detalhada e acompanhada de fotografia própria.

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