Vista de Mértola: Vila Histórica sobre o Guadiana

Mértola: À beira do Guadiana, onde o tempo flui lentamente

Descobre Mértola: uma vila alentejana rica em história, vistas sobre o Guadiana e sabores locais como o pão de boizões e as costas com gila.

No mês de fevereiro, quando o inverno alentejano se faz sentir mais pela quietude das vilas do que pela dureza do frio, passámos por Mértola a caminho de Nisa. A Volta ao Algarve em bicicleta tinha sido o nosso destino principal, mas foi nesta passagem por Mértola, num dia de semana encoberto, que descobrimos algo mais valioso do que esperávamos. Não apenas a calmaria que paira sobre a vila, mas uma sensação de viagem no tempo, uma ligação aos séculos passados que ainda respiram nas ruas de pedra e nas margens do rio Guadiana.

Castelo de Mértola: Guardião Histórico do Alentejo
O Castelo de Mértola, um símbolo de história e cultura sobre o Guadiana. Autor: Sérgio Santos

A chegada a Mértola: uma travessia temporal

Ao entrar em Mértola, sente-se que esta vila, fincada nas escarpas sobre o Guadiana, é um lugar que resiste à passagem do tempo. Ali, o presente não tem pressa, e o passado está em cada esquina, entre as muralhas desgastadas e as ruínas que contam histórias que vão muito além dos livros. O próprio Guadiana, que serpenteia pela paisagem como uma artéria de vida e história, ecoa com os passos dos fenícios, romanos, e mouros que, ao longo de milénios, fizeram de Mértola uma encruzilhada de culturas e trocas.

A nossa primeira paragem foi no centro da vila, no coração do que outrora foi a Mértola muçulmana, onde os ecos de uma civilização há muito desaparecida ainda vibram nas pedras da Igreja Matriz, que já foi mesquita. Este edifício, com a sua simplicidade austera e traços que misturam o cristão e o islâmico, recorda-nos da complexidade da história de Portugal, onde fé e cultura muitas vezes se entrelaçaram de formas inesperadas.

Uma loja com o sabor do Alentejo: pão de Boizões e costas com gila

Atravessando as ruas calmas e estreitas de Mértola, onde o silêncio é apenas interrompido pelo som dos nossos próprios passos, encontramos a “Loja da Terra”. Este pequeno espaço de produtos regionais é uma verdadeira janela para os sabores e tradições do Alentejo. Lá dentro, comprámos um pão de boizões, uma peça de pão tradicional alentejano, robusto como as gentes desta terra. A sua crosta firme e miolo denso eram perfeitos para acompanhar o queijo de Nisa que nos esperava em casa.

Mas o verdadeiro achado foi um bolo típico da região, que se chama costas com gila. Envolvido numa crosta dourada, o bolo esconde no seu interior o sabor doce e ligeiramente ácido da gila, uma abóbora que é ingrediente fundamental em tantas iguarias do Alentejo. Era uma combinação inesperada, tal como a vila em si: uma fusão de sabores simples, mas ricos, que nos fazem parar para apreciar o momento.

A calmaria de fevereiro: um cenário de tons quentes e céus encobertos

Era fevereiro, e embora o sol estivesse encoberto, havia uma tonalidade quente no céu que pintava a paisagem com uma luz suave. Esta luz filtrada, quase dourada, envolvia Mértola num manto de nostalgia, como se a vila estivesse presa entre estações, num tempo indefinido que só ali se encontra. A sensação de calma era palpável. As ruas, quase desertas, sugeriam que Mértola nos pertencia apenas a nós naquele momento, como um cenário deixado intocado para quem quisesse vê-lo.

Atravessámos então a margem do Guadiana. Do outro lado, com a vila à distância, pudemos contemplar Mértola em toda a sua grandiosidade serena. Lá do alto, as muralhas do castelo pareciam vigiar a planície com a mesma determinação com que o fizeram nos tempos de al-Mu’tamid, o poeta e emir que, durante o domínio islâmico, governou esta região. A vista era um poema em si, uma fusão de natureza e história, onde o rio parecia contar as histórias dos navegadores que, ao longo dos séculos, fizeram do Guadiana uma via de comércio e cultura.

Esta visão evocou o tributo poético de Manuel Neto dos Santos a al-Mu’tamid, imortalizado no seu livro AZAHAR – Tributo a al-Mu’tamid, uma obra que tivemos o prazer de receber diretamente de Manuel Neto dos Santos, cujo trabalho também enriquece o nosso blog, entrelaça nas suas palavras a essência das influências árabes do nosso Alentejo, honrando o legado cultural e poético do emir.

A muralha de Mértola e as suas casas típicas, preservando o charme alentejano. Autor: Sérgio Santos

Mértola ao longo dos séculos: um testemunho de civilizações

Mértola tem o singular privilégio de ser uma das vilas mais antigas do país, com ocupação humana desde a Pré-História. Os romanos, sempre atentos às localizações estratégicas, transformaram-na num porto importante, ligado à mineração de cobre e outros metais na região. Mas foi sob o domínio muçulmano que Mértola floresceu verdadeiramente, tornando-se uma das mais importantes cidades do Gharb al-Andalus, com uma população vibrante e um comércio próspero.

Os vestígios dessa época ainda estão muito presentes, especialmente no Núcleo de Arte Islâmica – Museu de Mértola Cláudio Torres, que alberga uma das mais importantes coleções de arte islâmica da Península Ibérica. Passeando pelos corredores deste museu, é impossível não sentir o peso da história e imaginar as vidas que aqui se desenrolaram, nas ruas que hoje percorremos.

Um guia para explorar Mértola: o que não perder

Para quem visita Mértola, há certos pontos que não podem ser ignorados. O Castelo de Mértola, com as suas vistas sobre o rio, oferece uma perspetiva única da vila e da sua envolvência. A Igreja Matriz, com a sua mistura de arquitetura cristã e islâmica, é um testemunho vivo da fusão cultural que define esta região. O Museu de Mértola, que está disperso por vários núcleos, é uma viagem através dos tempos, desde os romanos até ao período islâmico e além.

Além disso, não deixe de caminhar pelas ruas da vila, de se perder nos pequenos detalhes que fazem de Mértola um lugar tão especial. E, claro, pare na Loja da Terra ou noutras mercearias locais para provar o sabor autêntico do Alentejo.

A despedida: de regresso a Nisa, levando Mértola connosco

Com o pão de boizões e as costas com gila guardadas no carro, partimos em direção a Nisa, mas levámos connosco muito mais do que produtos regionais. Levámos a memória de uma vila que, embora pequena, transporta consigo o peso da história de séculos. E, ao atravessarmos o Alentejo, com o seu ritmo lento e paisagens vastas, a imagem de Mértola, aninhada nas margens do Guadiana, ficou connosco como um símbolo de tudo o que este lugar representa: calma, resistência e uma ligação profunda ao passado.

Álbum de fotografias de Mértola:

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Sofia

Autora de guias de viagem no Tapa ao Sal, partilha experiências autênticas pelos destinos de Portugal. Com mais de 180 artigos publicados, alia paixão pela gastronomia e cultura portuguesa a uma escrita detalhada e acompanhada de fotografia própria.

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