Salgueiro poesia manuel neto dos santos

Manuel Neto dos Santos – 7ª Publicação

CADERNO DE MONTE BOI E OUTROS VERSOS QUE ME CHAMAM COMO VOZES

Bandeira desfraldada, no alto deste monte,

O meu olhar repousa na nuvem intervalada…

E a inquieta melodia irrompe e um quase nada

Responde aos pintassilgos na oliveira, defronte.

Sou todas essas coisas, na paz desse meio-sono,

Sem outros que não sejam os naturais ruídos;

Abanos de palmeiras trazendo-me, aos ouvidos,

A aragem que desliza num lânguido abandono

Tem o vigor das heras verdenhas, “variegadas”,

A verve, a frouxa luz de um céu esfarrapado

Por ser todas as coisas; de mim desencontrado,

Aberto aos campos largos se os sonhos me arrecadas.

A íntima virtude, o arrojo deste encanto

Que, no centro da alma, um sol já me incendeia.

Há prenúncios de mim na paz, poe esta aldeia,

E certezas enormes que vos descrevo…e tanto.

28 maio 16

11,16 h

Nestes vultos altivos, que salpicam de altura

Os arroubos da terra a deslizar para o vale,

A maré de arvoredo é de beleza pura

Para que o olhar escorregue e, no vai-vem, se embale.

Sou livre, porque escolho a minha solidão

A ter de estar convosco, corpos vazios de tudo.

Estou só, por nascer livre que à liberdade mudo

O nome, a temperança, o espírito… e a razão.

Casa 28 maio 16

11,55 h

Como podia eu passar pela vida incerta

Tocando-lhe, ao de leve, com a ponta dos dedos

Se nela naufraguei ressuscitando os medos…

Agora? Sou falésia junto à praia deserta.

Meus versos? As peugadas deixadas pela areia,

As que a maré da morte jamais há- de alisar

Que o ramerrão da alma é, ele sim, o mar

E esta paz do que sou… enorme lua cheia.

Casa

28 maio 16

12,10h

Salgueiro Inverno
Fotografia ilustrativa – Salgueiro próximo ao Palácio da Rainha, Azambuja – Foto: Sérgio Santos
Manuel Neto dos Santos
Manuel Neto dos Santos

Autor de importante e multifacetada obra poética, grande parte dela ainda inédita.

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Manuel Neto dos Santos
Poeta, actor, declamador, tradutor, poliglota. Nasceu em Alcantarilha- (Silves-Algarve) - a 21 de Janeiro de 1959. Activista cultural desde a adolescência. Figura incontornável na moderna poesia portuguesa.

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