Ao sair das ruas silenciosas de Alpalhão, a estrada afina-se em fita de asfalto que se perde entre campos dourados pelo sol do Alto Alentejo. Muros de pedra, gastos pelo tempo e pelas estações, marcam o caminho. Aqui e ali, ovelhas pastam com a calma antiga de quem conhece cada sombra e cada pedra. Pequenas hortas, cuidadas com a paciência das mãos que as semeiam, abrem janelas verdes no meio do tom ocre da paisagem.
O percurso não se apressa. A cada curva, a quietude aumenta, como se a própria estrada quisesse preparar o visitante para o que está prestes a encontrar. E então, quase sem aviso, a Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, surge branca contra o azul do céu, ladeada por um imponente penedo granítico, guardião silencioso que observa desde muito antes da primeira pedra ter sido colocada.

O lugar impõe respeito e serenidade. Não apenas pelo valor arquitetónico, testemunho vivo do património religioso no Alentejo, mas pela forma como parece fundir-se com o que o rodeia, a luz, o vento, o silêncio quebrado apenas pelo som distante de um sino ou pelo canto dos pássaros.
É um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, de partida para quem procura compreender a alma da região. Aqui, a história e a fé caminham lado a lado, e cada visitante traz consigo o seu próprio tempo para estar, observar e sentir.
História e origem da Capela de Nossa Senhora da Redonda
Erguida no coração do Alto Alentejo, a Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, nasceu no século XVI, quando a fé se traduzia em pedra e cal, e cada detalhe era pensado para atravessar gerações. A sua origem está gravada na abóbada nervada da capela-mor, onde a data de 1564 resiste como assinatura de um tempo em que os artesãos não trabalhavam apenas para o presente, mas para a eternidade.
Ao longo dos séculos, o edifício foi-se transformando, mas sem perder a sua essência. No século XVIII, um sopro barroco entrou pelas portas, trazendo azulejos azuis e brancos que contam passagens bíblicas, molduras em policromia e um altar redesenhado com delicadeza.
A sobriedade quinhentista deu lugar a uma decoração mais rica, mas a capela continuou a guardar, intacto, o espírito do lugar, um equilíbrio entre simplicidade rural e arte sacra.
Hoje, protegida pela classificação de Imóvel de Interesse Público, a capela não é apenas um marco de arquitetura religiosa. É também um elo vivo com a história de Alpalhão, onde cada pedra e cada azulejo parecem guardar um fragmento da memória coletiva, preparando o visitante para compreender melhor a devoção e as tradições que ainda hoje se renovam à sua porta.
Arquitetura e elementos artísticos
Antes de se entrar na história e nas tradições que envolvem a Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, é impossível não deter o olhar na forma como o edifício dialoga com o lugar. Cada linha da sua arquitetura, cada detalhe artístico, parece nascer da própria paisagem, como se sempre tivesse estado ali. Esta harmonia entre pedra, luz e devoção é o que dá início à descoberta dos seus elementos mais marcantes.
Exterior simples e integrado na paisagem
A Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, apresenta-se com a sobriedade típica da arquitetura rural alentejana. A fachada branca, limpa e luminosa, destaca-se contra o céu amplo.
À entrada, a galilé protege um banco corrido de pedra, lugar de descanso e de espera para fiéis e viajantes ao longo dos séculos. Um pequeno campanário ergue-se sobre a parede, guardando um sino cuja voz ainda ecoa em dias de festa. Logo acima da porta, o janelão de coro abre-se como um olhar silencioso para o exterior.
A poucos passos, o penedo granítico impõe-se como guardião natural. Na sua lateral, uma escadaria talhada na própria rocha conduz a um patamar elevado, de onde se avista a paisagem rural que envolve a capela. É um detalhe inesperado, que liga o sagrado da construção à força primitiva da terra que a sustenta.

Interior com detalhes barrocos
Se o exterior é marcado pela simplicidade, o interior revela um discurso visual mais elaborado. Os azulejos azuis e brancos do século XVIII cobrem as paredes da capela-mor com cenas bíblicas, a Visitação, a Adoração dos Pastores, a Apresentação no Templo e a Circuncisão, acompanhadas de legendas em latim, preservando a ligação a tradições litúrgicas antigas.
O retábulo, também de inspiração barroca, exibe policromia delicada, misturando tons dourados e suaves que conduzem o olhar para a imagem de Nossa Senhora.
Cada elemento, da pedra que sustenta ao dourado que realça, conta uma história de devoção e permanência, transformando este pequeno templo num testemunho vivo do património religioso no Alentejo.
Lendas e devoção popular
Conta-se que, há muitos anos, um homem da Amieira do Tejo sonhou com a imagem de Nossa Senhora, que lhe indicava o lugar exato onde deveria procurá-la.
Ao despertar, guiou-se pela memória do sonho e encontrou, junto à ribeira do Sor, a pequena escultura que hoje dá nome à Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão. Desde então, a história passou de boca em boca, atravessando gerações, como um segredo sagrado partilhado pela comunidade.
A tradição oral é rica em versos e quadras que celebram a Senhora da Redonda. Palavras simples, mas cheias de devoção, entoadas em romarias, escritas em papel amarelado pelo tempo ou guardadas apenas na memória de quem as ouviu na infância. São pedaços de identidade local, tão importantes quanto as pedras da própria capela.
A ligação da população de Alpalhão a este pequeno templo vai além do calendário religioso. A romaria, as promessas cumpridas, as flores deixadas no altar e até o simples gesto de parar à sombra do penedo para rezar em silêncio mostram que este é mais do que um lugar de culto.
É um ponto de encontro entre fé e pertença, onde cada habitante leva consigo uma história e um motivo para voltar.
A romaria da Nossa Senhora da Redonda
Na segunda-feira de Páscoa, a calma habitual da Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, transforma-se. Logo de manhã, os caminhos rurais ganham movimento: passos apressados, vozes que se cumprimentam, o som intermitente dos carros que chegam com famílias inteiras. O adro enche-se de cor e de vida, e o ar transporta o cheiro a terra molhada, flores frescas e pão acabado de cozer.
A procissão é o momento alto. A pequena imagem de Nossa Senhora, delicada e serena, surge adornada com colares e peças de ouro, reluzindo à luz do dia. É acompanhada por cânticos, promessas silenciosas e olhares que misturam fé e orgulho. O compasso das andas é lento, permitindo que cada gesto seja visto e sentido por quem assiste.
Quando a cerimónia religiosa termina, o espírito de comunidade toma conta do campo. Mesas improvisadas sob as árvores recebem travessas de borrego assado, enchidos e broas. O ritual de “comer o borrego” não é apenas tradição gastronómica; é o prolongamento da celebração, uma partilha que junta famílias, vizinhos e visitantes num convívio sem pressa.
Para Alpalhão, esta romaria é mais do que um evento religioso, é um marco identitário. Um dia em que passado e presente se encontram, renovando laços e reafirmando a ligação profunda entre o povo e a sua Senhora. E mesmo para quem chega pela primeira vez, a sensação é clara: aqui, a fé é também um convite à pertença.
Onde fica e como chegar
A Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, ergue-se a cerca de dois quilómetros do centro da vila, num recanto onde a Ribeira do Sor corre tranquila, quase em segredo. O caminho até lá é simples e agradável: uma estrada asfaltada, estreita mas bem cuidada, serpenteia por entre hortas e muros de pedra, revelando, a cada curva, um pedaço da paisagem agrícola que molda a identidade do Alto Alentejo.
É possível chegar de carro até junto da capela, mas quem optar por fazer o percurso a pé ou de bicicleta ganha tempo para observar os detalhes: as oliveiras antigas que marcam o ritmo das estações, as ovelhas pastando devagar, e o murmúrio distante da água. O acesso é suave, sem grandes desníveis, tornando a visita possível para todas as idades.
Fora da época da romaria, o lugar mantém-se sereno, quase sempre entregue ao canto das aves e ao som do vento entre as árvores. É um bom momento para explorar o espaço com calma, apreciar a luz que muda ao longo do dia e, talvez, aproveitar as mesas de granito à sombra para um descanso demorado.
Quem tiver tempo pode ainda estender o passeio até à Anta da Senhora da Redonda, a poucos minutos dali, acrescentando à experiência um mergulho na história muito mais antiga da região.
Experiência de visita: um percurso de contemplação
Chegar à Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, ao final da tarde é entrar num compasso diferente do dia. A luz, mais baixa e dourada, desenha sombras compridas que se estendem pela estrada e pelo adro. O calor abranda, e o ar, levemente perfumado de estevas e poejo, parece convidar a ficar.
O silêncio aqui não é ausência, mas presença. Há o som seco das cigarras no campo, o murmúrio distante de água que corre na ribeira, e, por vezes, o tilintar de um sino que ecoa, suave, como se não tivesse pressa de se dissipar.
À sombra de sobreiros e oliveiras antigas, mesas de granito aguardam quem queira repousar. São o lugar certo para abrir uma merenda, beber água fresca ou simplesmente observar, a fachada branca da capela, o penedo granítico ao lado, o caminho por onde se chegou, ladeado de hortas e muros de pedra.
É um espaço que convida ao ritmo lento, à contemplação que se prolonga depois de se ter visto “o que havia para ver”. Aqui, a experiência não é apenas olhar, mas sentir: o peso fresco da pedra sob a mão, a brisa morna que chega do campo, a certeza de estar num lugar onde o tempo parece mover-se de forma diferente.
Extensões à visita e o que ver perto
Antes de deixar a Capela de Nossa Senhora da Redonda, é impossível não sentir que o lugar é apenas o início de um percurso maior. A paisagem que a envolve convida a explorar, revelando tesouros que vão da pré-história à vida tranquila das vilas alentejanas, passando por sabores que contam histórias à mesa. Nos arredores, cada paragem guarda um pedaço da identidade desta região.
1 – Anta da Senhora da Redonda
A poucos minutos da Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, ergue-se a Anta que partilha o mesmo nome. É um monumento megalítico que atravessou milénios, testemunhando rituais muito anteriores ao cristianismo que hoje marca a paisagem. O acesso é feito por um breve desvio da estrada asfaltada, e vale a pena percorrê-lo devagar, sentindo a transição entre o presente e um passado remoto. No silêncio que envolve as lajes erguidas, é fácil imaginar as histórias que aqui se perderam no tempo.
2 – Alpalhão e o seu património
De regresso à vila, vale a pena explorar as ruas tranquilas e a zona histórica. Alpalhão guarda um conjunto de igrejas, largos e casas de traça antiga que ajudam a compreender a ligação profunda entre a comunidade e o seu território. Para um roteiro mais completo, pode seguir o nosso guia Alpalhão o que visitar, que reúne os principais pontos de interesse e curiosidades locais.
3 – Outras extensões na região
A visita à Senhora da Redonda pode ser também uma desculpa para saborear a gastronomia do Alto Alentejo. Uma boa opção é o Restaurante Regata, conhecido pela cozinha genuína e pelo ambiente acolhedor.
Se o tempo permitir, estenda o passeio até ao Castelo de Vide, com o seu centro histórico bem preservado e vistas de cortar a respiração, ou siga até Nisa, vila de tradições artesanais e forte identidade cultural. Cada destino acrescenta camadas à experiência de quem visita esta parte do Alentejo, onde a história e a paisagem se entrelaçam a cada curva da estrada.
Dicas práticas para a visita
A Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, revela-se de forma diferente consoante a hora do dia. De manhã cedo, o ar é fresco e a luz suaviza os contornos da paisagem, criando um ambiente de recolhimento. Ao entardecer, os tons dourados e as sombras compridas tornam o cenário mais íntimo, ideal para quem procura contemplar sem pressa.
Leve sempre água, especialmente nos meses mais quentes, e não dispense proteção solar. Um chapéu e calçado confortável tornam o passeio mais agradável, sobretudo se decidir percorrer a pé o caminho que liga a vila à capela ou prolongar a visita até à Anta da Senhora da Redonda.
Por se tratar de um espaço de culto, é essencial manter uma postura respeitosa. Falar em voz baixa no interior, evitar gestos bruscos e abster-se de tocar nos elementos decorativos ou religiosos ajuda a preservar a atmosfera de serenidade. Mais do que uma paragem turística, este é um lugar vivo de fé e memória, e a forma como o visitamos é também parte da história que ele continuará a contar.
Conclusão: onde o sagrado encontra a serenidade do Alentejo
No silêncio que se instala quando o último visitante parte, a Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, volta a ser apenas ela própria, branca contra o azul, guardada pelo penedo, cercada pelo murmúrio do campo. Aqui, a fé não se impõe; respira, como o vento que passa entre as oliveiras. A tradição não é apenas lembrança; é presença viva nos versos, nos gestos, nas promessas que se cumprem ano após ano.
A paisagem parece ter aprendido com a capela a arte da permanência. Cada pedra, cada sombra, cada perfume de terra e ervas, guarda um pedaço da história de quem veio antes e deixou, sem querer, um convite para voltar.
Visitar este lugar é mais do que seguir um mapa ou cumprir um roteiro. É permitir-se abrandar, escutar e sentir. É deixar que o tempo corra devagar e que, por instantes, a alma se ajuste ao compasso do Alto Alentejo. Porque a Senhora da Redonda não é só um destino, é um encontro.

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Galeria de imagens: A Senhora da Redonda em detalhes
Percorra esta seleção de imagens captadas durante a visita à Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão e à sua envolvente. Cada fotografia revela um fragmento da atmosfera única do lugar, da fachada branca ao penedo granítico, dos pormenores arquitetónicos à serenidade do campo alentejano. Um convite visual para sentir, mesmo à distância, a harmonia entre fé, tradição e paisagem.
Perguntas frequentes sobre a Capela de Nossa Senhora da Redonda
Antes de planear a sua ida à Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, pode ser útil esclarecer algumas questões que costumam surgir a quem ouve falar deste lugar pela primeira vez. São detalhes simples, mas que ajudam a organizar a visita e a tirar o melhor proveito de cada momento passado neste recanto do Alto Alentejo.
Quando é a romaria da Senhora da Redonda?
Realiza-se na segunda-feira de Páscoa. Nesse dia, a tranquilidade habitual dá lugar a um encontro vibrante, onde a fé e a convivência se misturam em procissões, cânticos e mesas partilhadas à sombra.
É possível visitar a capela fora da romaria?
Sim. Fora da festa, o local mantém-se sereno e acessível para quem deseja apreciar a Capela de Nossa Senhora da Redonda, em Alpalhão, e a paisagem envolvente. No entanto, a capela encontra-se habitualmente fechada, sendo possível visitar apenas o exterior. Mesmo assim, o adro, o penedo granítico e a envolvente rural oferecem um cenário digno de contemplação, acompanhado apenas pelo vento e pelo canto das aves
A visita é gratuita?
Sim. Não há qualquer custo para conhecer o espaço exterior. Trata-se de um local aberto à comunidade e aos viajantes que chegam com curiosidade e respeito, seja para fotografar, descansar à sombra das árvores ou simplesmente absorver a serenidade do lugar
Quanto tempo reservar para a visita?
Uma hora é suficiente para conhecer a capela e desfrutar da calma do adro. Mas quem quiser caminhar até à Anta da Senhora da Redonda ou explorar Alpalhão deve dedicar pelo menos meio dia, para absorver o ritmo lento e o carácter genuíno da região.
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Sentiu a serenidade ao aproximar-se pela estrada rural? Reparou no branco da fachada contra o azul do céu, no penedo granítico que parece guardar a capela há séculos? Ouvindo o vento a passar pelas oliveiras, o tilintar distante de um sino, sentiu como se o tempo abrandasse?
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Pode ser alguém que aprecie o silêncio dos lugares sagrados, que goste de percorrer caminhos tranquilos e observar detalhes que contam histórias. Pode ser alguém que precise de se lembrar que o património não vive apenas nas datas, mas na forma como continua a tocar quem o visita.
A Senhora da Redonda não pede pressa. Pede atenção.
E, se for com tempo, talvez descubra que, entre pedra, devoção e campo, há lugares que não se medem em quilómetros, mas em memórias. Lugares que, mesmo sem palavras, guardam mais do que se consegue descrever.
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