Manuel Neto dos Santos - 4ª Publicação

Manuel Neto dos Santos – 4ª Publicação

CADERNO DE MONTE BOI E OUTROS VERSOS QUE ME CHAMAM COMO VOZES

1

Somam-se os dias plenos deste esperar por ti,

cadência das palavras que à minha boca alteias,

imagens de uma vida por capitais e aldeias,

pelas urbes, descampados, tão longe e por aqui.

Regresso ao meu sossego, a Monte Boi esquecido,

retomo a escrita e os livros, distante de elogios,

e os poemas, singelos, fazem lembrar os rios

deslizando, em silêncio, murmúrios ao ouvido.

Somam-se os dias plenos, replectos de palavras,

vagueando sozinho por entre estes vergéis…

regresso à aldeia e ponho os sonhos nos papéis

Ao vosso aplauso…antes o odor das ervas bravas.

Casa

26 maio 16

10,00h

Castelo-de-Mourão_poesia
Fotografia ilustrativa – Rebanho de cabras no interior do Castelo de Mourão – Foto: Sérgio Santos

2

Ó Monte Boi; retiro com o céu à minha altura.

As nuvens, se quisesse, tocava com os dedos.

Ninguém mora nas casas, os templos dos segredos

da história de outras vidas, constante formosura.

Mirante que me oferece o Sul, numa bandeja,

este vasto horizonte que me avizinha o mar…

e eu esqueço o tempo e fico… e fico a contemplar

a beleza do Algarve que é tanta…que sobeja.

26 maio 16

10.10h

Santuário-de-Nossa-Senhora-da-Penha
Fotografia ilustrativa – Santuário de Nossa Senhora da Peneda, Arcos de Valdevez – Foto: Sérgio Santos

3

sou caçador das sombras, desenhadas na cal,

consoante a incidência do sol imperador

ou sanguínea visão de uma roseira em flor;

gerânios, estas malvas flamejantes de ardor

que oferece, ao meu olhar, infantil arraial.

O branco, azul, vermelho da pedra grés às portas,

nos poiais que prefiro aos pedantes degraus…

e ando ao sabor da vida já quando, às horas mortas,

a aldeia é a ternura… do abraço dos meus pais.

26 maio 16

11 h

poesia Azenhas-do-Mar
Fotografia ilustrativa – Parede caiada, Azenhas do Mar – Foto: Sérgio Santos

4

Perguntam-me, porém, da minha placidez,

De onde me vem a paz com que a tristeza iludo.

Faço silêncio e digo: -A placidez? De tudo

O que daqui avisto; rosmanos e marés,

E a madressilva e a prata das tenras oliveiras,

as irmãs primitivas, anãs, as zambujeiras

E os carrascos e os funchos, das orquídeas esquivas,

Batatas albarrãs das cores de azul mais vivas

nascendo nos valados De pedras milenares,

alheias à mudança alheias ao progresso…

mendigo a placidez que, à vida, mais não peço,

tal como é mendicante o musgo dos valados…

A minha placidez? Meus olhos sossegados

Pelas veredas estreitas, Nas nuvens, pelos ares.

26 maio 16

12,09h

Estrada-em-Castelo-de-Vide
Fotografia ilustrativa – Estrada rural ao pôr-do-sol, Castelo de Vide – Foto: Sérgio Santos

5

Regresso à minha alma como, ao final da tarde,

De volta a passarada ao lar, no meu jardim;

Pináculos de ciprestes a fervilhar de alarde

Enquanto a brisa asperge perfume do jasmim.

Também sou viandante de rotas que não digo,

Derrotas das quais fiz meus versos vencedores

E venço as dores… por ser, por estar de bem comigo,

No estado natural, irmão das simples flores.

Regresso à minha alma, ao ninho amornecido

Pelo sol do antigo sonho, macio de antigas penas,

Que apenas me descrevo num céu desconhecido

E acordo… ao romper de alva, às horas mais serenas.

Casa

26 maio 16

17.42 h

Telhados-de-Montalvão
Fotografia ilustrativa – Telhados de Montalvão – Foto: Sérgio Santos
Manuel Neto dos Santos
Manuel Neto dos Santos

Autor de importante e multifacetada obra poética, grande parte dela ainda inédita.

Default image
Manuel Neto dos Santos
Poeta, actor, declamador, tradutor, poliglota. Nasceu em Alcantarilha- (Silves-Algarve) - a 21 de Janeiro de 1959. Activista cultural desde a adolescência. Figura incontornável na moderna poesia portuguesa.

Deixe um Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.